segunda-feira, 4 de julho de 2011

O raio do bichinho

Esta coisa de ser arqueiro não é fácil. E dirão os surfistas, lutadores de sumo, ciclistas e outros mais que "Pffft, isso de ser arqueiro não é nada!". Mas desculpem-me os não arqueiros, porque há coisas de arqueiros que só os arqueiros podem sentir.

Desde já peço desculpa pelo desabafo que aí vem, mas pela primeira vez com net numa deslocação internacional não podia deixar o "Ervilhas" sem assunto!

Ora, para começar, estou aqui e terminou hoje a minha participação. Apesar de tão cedo terminar estou muito satisfeita com o meu desempenho mas não é sobre isso que escrevo.

Saberão os arqueiros que durante uma prova nos assomam os pensamentos mais parvos e distantes deste mundo, em especial numa prova deste nível. Ora, a meio dos 70m, estando eu satisfeita por estar calma e a atirar ao nível dos treinos, deu-me para avaliar o porquê de insistir em vir a estas coisas sabendo de antemão que o nível de treino que consigo manter não me permite ir além do último terço da tabela. Acabaram os 70m e estava eu já a pensar escrever um livro sobre o assunto, coisa que deve ter feito o meu subconsciente "levantar o rabo do sofá" e suspirar: "Bom...parece que tenho que ir mostrar a esta gaja porquê senão passamos o dia nisto!".

E o que se seguiu foi de facto o porquê, mas não o consigo explicar.
Diz-se no mundo do tiro que há dias mágicos. Dias em que parece que qualquer que seja a asneira que fáçamos as flechas atingem sempre o centro, dando quase vontade de atirar de olhos fechados para testar a magia. Mas não foi nada disso que aconteceu, não foi mágico, fui eu.

Dominei os 60m do princípio ao fim, não houve nem uma flecha que possa chamar má. Fui eu que as atirei todas, fui eu que controlei a técnica e o arco, fui que que as senti a todas. E a sensação, caramba, a sensação, é indescritível. Senti-me como exactamente há 10 anos atrás, quando treinava de manhã à noite, todos os músculos, todas as forças, tudo no sítio, tão fácil, tão simples. E a pontuação também foi a de há 10 anos atrás. A meio dos 60m, pensamentos parvos outra vez, mas desta vez foi a percepção de que me estava realmente a divertir e passei o tempo restante a apreciar o momento.

O porquê de continuar, mesmo sem tempo, sem cabeça, sem companhia para treinar a sério? Porque aquela sensação de controlo do tiro é um êxtase e vale a pena sentir mesmo que por meia dúzia de flechas, porque é possível se se conseguir levantar o subsconsciente do sofá, porque, raios, eu até sei, mas esquece-me! Ai que pica de ir treinar!

1 comentário:

kawamura disse...

Atirei a minha última flecha há 12 anos mas ainda me lembro do que falas. É aquela sensação de armares o arco na posição correcta, levantares o arco e a mira estar no 10, trazeres a corda ao sítio certo no queixo e demorares o tempo perfeito a ouvir o click para disparares. E tudo isto culminar numa parábola perfeita e ouvires um "paf" seco de uma flecha a furar o 10. E o cheirinho a relva acabada de regar num campo de treino. Just perfect...